Segundo o jornalista e escritor canadense Will Self, a tecnologia faz com que as pessoas se toquem menos.
Solarianos desenvolveram um grande tabu contra qualquer tipo de aproximação física. Assim, nunca chegaram a ocupar o mesmo quarto ou mesmo se tocaram. Qualquer relação sexual entre eles assumia a forma de "telepresença holográfica", uma espécie de conferência 3D. Então, ao invés de se visitarem, os solarianos participavam do que chamam de "visualização".
Como todas boas obras de ficção científica, a de Asimov refletia tanto a era dele quanto a de qualquer futuro remoto. Escrevendo no final dos anos 1950, ele assistiu às consequências da produção e distribuição automatizadas aliada às telecomunicações ─ em outras palavras, uma diminuição constante no número e duração dos contatos pessoais que uma pessoa teria que fazer durante qualquer dia.
Mas quanto o nosso próprio mundo se tornou como Solaria na segunda metade do século?
É verdade que dificilmente conseguimos nos livrar da necessidade de trabalhar de forma automática ─ embora muitos de nós suspeitem que o nosso trabalho, tal como é, esteja fundamentalmente separado da base real do nosso sustento.
Podemos não ter servos robóticos, mas dependemos de linhas de montagem de robôs e sistemas de controle de tráfego cibernéticos, por exemplo. E, no lugar da telepresença holográfica, gastamos grande parte do nosso tempo nos comunicando pela internet.
A tela sensível ao toque, a porta automática ou as compras online nos privam do exercício do nosso próprio sentido de toque, e, em particular, nos privam da necessidade de tocar outras pessoas ─ podemos não ser solarianos ainda, mas estamos chegando lá.
De maneira alguma desejo voltar ao tipo de sociedade hierárquica em que um senhor ou senhora começam o dia sendo vestidos por algum criado ou empregada. No entanto, com certeza não estou sozinho em sentir nostalgia de um mundo mais meloso.
Passamos nossos dias cercados por dedos que digitam freneticamente e por corações que batem acaloradamente ─ mas que, apesar disso, permanecem friamente inviolados.
Em parte, a rejeição da nossa cultura de toque pode ser vista como um legado do dualismo mente/corpo implícita na tradição judaico-cristã. Afinal, a nossa posse da consciência ─ esta "matéria mental" imaterial ─ nos eleva acima da mera criação bruta, e nos coloca aempé de igualdade com os anjos e o próprio Deus.
É claro que há uma forma de contato que nós privilegiamos acima de todas as outras. Desenvolvemos algo que é, por um lado, a concepção mais exaltada da forma de contato humano e, por outro, uma das mais degradadas.
Mas se nos afastarmos do que pensamos sobre a nossa sexualidade ─ sendo pela janela rosada do romantismo ou pela tela manchada da pornografia ─, o que descobrimos é que o sexo é apenas a forma mais abrangente que temos de perceber como alguém experimenta o seu próprio ser.







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